SIRESP em fim de vida, diz documento oficial. Até antenas ficaram penduradas em árvores.

O SIRESP não é uma rede qualquer. É a rede que devia aguentar quando tudo falha

Ou, é o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal, usado por forças de segurança, proteção civil, emergência médica e outras entidades públicas em situações críticas. Um documento técnico descreve-o como a “rede móvel portuguesa destinada a todas as entidades públicas operando no campo de emergência e segurança”, assegurando “a intercomunicação e a interoperabilidade entre as diversas forças e serviços”.

Traduzindo: quando há incêndios, apagões, cheias, acidentes graves ou catástrofes, esta é uma das redes que não devia falhar. O problema é que a história do SIRESP tem demasiados episódios em que a realidade foi mais dura do que a teoria.

Pedrógão já tinha mostrado o problema do SIRESP

Em 2017, no incêndio de Pedrógão Grande, o SIRESP ficou no centro da polémica. A RTP noticiou que “as comunicações falharam quase por completo na ajuda às populações” e que as entidades envolvidas “não conseguiram comunicar de forma efetiva entre si”.

O próprio Governo publicou, em junho de 2017, relatórios e despachos sobre o desempenho do SIRESP no incêndio de Pedrógão Grande. Ou seja, o problema não era rumor, nem conversa de bombeiros revoltados. O Estado teve relatórios sobre a mesa.

Ainda assim, os anos passaram. O sistema continuou a ser essencial, mas também continuou rodeado de dúvidas. A promessa era sempre a mesma: corrigir, reforçar, modernizar. A pergunta que fica é simples: quantos avisos são precisos até uma rede crítica deixar de viver em modo remendo?

Em 2021, o próprio SIRESP dizia que a rede estava em fim de vida

A frase mais grave não vem de um partido da oposição, de um sindicato ou de uma notícia sensacionalista. Vem do Relatório e Contas 2021 da SIRESP, S.A.

O documento é claro: “A rede atual da SIRESP está em fim de vida, pelo que a evolução é necessária.” E acrescenta que a operadora devia fazer uma “transição para LTE 4G/5G de tal modo que não tenha interrupção do serviço de comunicações críticas”.

Esta frase muda tudo. Não estamos perante uma descoberta de 2026. Em 2021, a própria entidade reconhecia que a rede estava em fim de vida. O que aconteceu depois foi uma sucessão de anúncios, estudos, equipas de trabalho e promessas de substituição urgente.

Em maio de 2025, o Despacho n.º 5274/2025 mandou criar uma equipa técnica para estudar a “substituição urgente” do SIRESP. O mesmo despacho fala em “limitações estruturais e operacionais progressivamente evidenciadas” pelo sistema, sobretudo em cenários de elevada exigência operacional.

Em 2026, a situação é no mínimo de espanto…

O documento oficial Reforço da Resiliência da Rede SIRESP, apresentado em maio de 2026 pelo Governo, é devastador pela simplicidade das imagens e dos números.

No capítulo sobre a tempestade Kristin, o relatório fala em “impacto crítico na Rede SIRESP” e apresenta “evidência fotográfica dos danos registados em campo nas infraestruturas de comunicações críticas de emergência”.

Os números são duros: 8 torres derrubadas pelo vento, 34 circuitos terrestres inoperacionais, 12 circuitos satélite de redundância afetados e 21 falhas de energia registadas.

Mas a imagem mais embaraçosa está na página seguinte. O documento mostra uma “Antena VSAT improvisada em galho de árvore”. Não é uma metáfora. Não é uma piada. É a legenda oficial de uma fotografia num documento do Estado. As vulnerabilidades existem. O Governo não as nega.

SIRESP

Uma rede crítica não pode depender de improvisos

O caso da antena pendurada numa árvore é visualmente explosivo, mas o problema é maior. O SIRESP já falhou no passado, foi descrito como estando em fim de vida em 2021, motivou uma equipa para a sua substituição urgente em 2025 e, em 2026, voltou a surgir em documentos oficiais com torres derrubadas, circuitos inoperacionais, falhas de energia e improvisação no terreno.

A questão já não é saber se o SIRESP precisa de reforço. O próprio Estado admite que precisa.

A questão é outra: como é que uma infraestrutura crítica, destinada a funcionar precisamente quando tudo falha, chegou ao ponto de um documento oficial mostrar uma antena VSAT improvisada num galho de árvore?

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