Carros do Banco de Portugal custaram 2,1 milhões em três anos, mas recusaram listar os veículos comprados

Os carros do Banco de Portugal custaram mais de 2,1 milhões de euros em apenas três anos, mas a instituição recusou listar ao Tugaleaks os veículos comprados. Mesmo depois de um parecer da Comissão de Acesso a Documentos Administrativos ter concluído que a mera remissão para o portal BASE não era suficiente.

Em causa está um pedido de informação feito pelo Tugaleaks sobre os contratos públicos celebrados pelo Banco de Portugal entre 2023 e 2025, relativamente à aquisição de veículos automóveis para a sua frota.

A resposta do Banco de Portugal confirmou o essencial: foram adquiridas 48 viaturas de serviço, no montante global de 2.147.386 euros. Feitas as contas, isto representa cerca de 44.737 euros por viatura. Ao longo dos três anos, o valor corresponde ainda a cerca de 1.960 euros por dia.

Ou seja: apenas para carros do Banco de Portugal contrataram perto de dois mil euros por dia.

Banco de Portugal sabia o total, mas não quis mostrar os contratos

O pedido do Tugaleaks não perguntava apenas o total. Perguntava “quantos, quais, e quais os valores dos contratos” destinados à aquisição de veículos automóveis para a frota do Banco de Portugal, solicitando o envio da informação em PDF, por e-mail, ou através do link de cada adjudicação caso estivesse online.

A resposta da instituição sobre os carros do Banco de Portugal foi outra: “A informação solicitada encontra-se disponível no portal base.gov, correspondendo à aquisição pelo Banco de Portugal de 48 viaturas de serviço no período de 2023 a 2025, no montante global de 2.147.386 €.”

A frase é reveladora. O Banco de Portugal conseguiu apurar o número de viaturas e o montante global, mas não forneceu a lista dos contratos, nem os links individualizados, nem um documento que permitisse perceber que veículos foram adquiridos, a quem, por que valores e através de que procedimentos.

Na prática, a instituição disse ao Tugaleaks para procurar no portal BASE aquilo que a própria instituição já tinha identificado, pois não existia outra forma de saberem o total.

Parecer arrasa caso dos carros do Banco de Portugal: não basta dizer que está na Internet

O Tugaleaks apresentou queixa à Comissão de Acesso a Documentos Administrativos. No Parecer n.º 192/2026 a CADA enquadrou o caso como acesso a informação relativa a procedimentos de contratação pública.

A Comissão recordou que a regra geral da Lei n.º 26/2016 é o livre acesso aos documentos administrativos, incluindo informação sobre a sua existência e conteúdo. Recordou também que, no Código dos Contratos Públicos, a formação e execução dos contratos públicos devem respeitar princípios como a legalidade, a prossecução do interesse público, a publicidade e a transparência.

Mais importante: a CADA voltou a dizer que tanto no caso dos carros do Banco de Portugal como em tantos outros, a disponibilização de documentos na Internet não dispensa a entidade de indicar a localização exata da informação pretendida.

Citando o Parecer n.º 390/2022, a Comissão foi clara: “não basta a indicação de que os dados ou documentos estão na Internet, se essa indicação genérica obrigar cada requerente de acesso a um trabalho de busca entre múltiplas publicações”. A CADA acrescentou ainda que “exata localização não é, pois, apenas, a indicação do portal, sítio ou página eletrónicos”.

No mesmo sentido, o Tugaleaks já tinha invocado o Parecer n.º 305/2022 da mesma comissão, onde se lê que não basta uma referência genérica à existência de publicação no portal base.gov.pt “sem uma precisão que permita ao requerente obter, de forma imediata e simples, a informação que procura”.

Recusa mantida mesmo após parecer

Depois do parecer da CADA, o Banco de Portugal voltou a responder. Em 14 de maio de 2026, transmitiu a sua “decisão final fundamentada”.

Mas a decisão não trouxe a lista dos veículos. Nem trouxe os links individualizados. Nem trouxe um PDF com os contratos.

O Banco de Portugal reiterou que a informação estava no portal BASE e defendeu que a lei não lhe exigia a elaboração de uma listagem ou de outro documento com os links dos contratos em causa.

Este é o ponto central da história: uma instituição pública que sabe dizer que foram 48 viaturas e 2,147 milhões de euros, mas que, perante um pedido jornalístico concreto e um parecer da CADA, insiste em não listar os contratos correspondentes.

O que acontece se uma entidade pública ignorar um parecer da CADA?

Na prática, muito pouco. A entidade deve comunicar uma decisão final fundamentada após o parecer da CADA, mas pode manter a recusa. Se o requerente discordar, normalmente terá de recorrer aos tribunais administrativos, com custos, tempo de espera e eventual necessidade de apoio jurídico. É aqui que o sistema falha: a CADA pode dar razão ao cidadão, mas sem tribunal a entidade pode continuar a não entregar os documentos.

Um padrão sobre carros do Banco de Portugal que já vinha de trás

Esta não é a primeira vez que os carros do Banco de Portugal levantam dúvidas públicas. Em 2014, o Tugaleaks já tinha noticiado as compras de carros de luxo pela instituição, referindo contratos publicados no Portal BASE no valor de 30.844,21 €, 40.851,22 € e 31.648,31 €, todos com a Caetano Baviera.

Na altura, o Tugaleaks escreveu que o Banco de Portugal tinha sido contactado para comentar essas aquisições, mas que “até ao momento não foi possível obter qualquer resposta”. Mais de dez anos depois, o padrão parece repetir-se: valores elevados em carros, respostas mínimas e resistência em prestar informação completa.

Em 2018, o Tugaleaks voltou ao tema, desta vez com a notícia de que o Banco de Portugal tinha gasto 512 mil euros em carros só em 2017. Nessa altura, estavam em causa 15 viaturas, maioritariamente BMW, e uma Mercedes-Benz.

A diferença é que, agora, o problema já não é só o valor. É a opacidade: o Banco de Portugal confirmou 48 viaturas por 2.147.386 euros, mas não entregou a lista concreta dos contratos mesmo após parecer da CADA.

A comparação com notícias anteriores do Tugaleaks mostra que o problema não desapareceu. Em 2017, o Banco de Portugal gastou 512 mil euros em 15 viaturas, cerca de 1.403 euros por dia. Entre 2023 e 2025, o valor subiu para 2.147.386 euros em três anos, cerca de 1.960 euros por dia. Ou seja, o ritmo diário de despesa com carros aumentou cerca de 40%.

Transparência só quando convém?

Este caso dos carros do Banco de Portugal não é apenas “um caso”. É um padrão.

O Banco de Portugal é uma das instituições mais poderosas do Estado. Supervisiona bancos, intervém no sistema financeiro e teve um papel central em algumas das maiores crises bancárias das últimas décadas, incluindo BES e Banif.

A própria RTP noticiou, em 2015, que o relatório final da comissão de inquérito BES/GES criticava supervisores por falta de respostas claras sobre o papel comercial, lamentando a falta de “respostas claras” das entidades perante os lesados.

Também no caso Banif, o Banco de Portugal esteve no centro da resolução aplicada em dezembro de 2015, operação que marcou milhares de clientes, trabalhadores e contribuintes.

Por isso, a pergunta é simples: se só os carros do Banco de Portugal custaram quase 2 mil euros por dia durante três anos, que outros custos, contratos ou desperdícios estarão escondidos em rubricas menos visíveis?

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