Um capitão da Base das Lajes pediu 200 euros a um colega alegando que precisava do dinheiro para pagar um tratamento hospitalar da mãe. A referência indicada para receber o dinheiro não pertencia a um hospital. Segundo o processo disciplinar a que o Tugaleaks teve acesso exclusivo, estava associada à Betclic.
O militar, era capitão da Força Aérea, técnico de saúde e estava colocado na Base Aérea n.º 4, a Base das Lajes, desde 2014, onde desempenhou funções de enfermeiro. Tinha sido promovido a capitão em outubro de 2023.
O caso dos 200 euros não foi isolado. A investigação interna da Força Aérea descreve sucessivos pedidos de dinheiro a militares e civis, acompanhados por histórias sobre tratamentos médicos, cancro, propinas e dificuldades financeiras.
Contactado pelo Tugaleaks, o advogado do capitão confirmou os pedidos de dinheiro descritos no processo e confirmou também que os 200 euros pedidos para um alegado tratamento da mãe foram utilizados em apostas na Betclic. A defesa contesta, porém, a leitura feita pela Força Aérea sobre a capacidade de discernimento do militar e sustenta que os comportamentos ocorreram num contexto de perturbação do jogo.
A investigação Tugaleaks:
Capitão da Base das Lajes pediu €200 para alegado tratamento
Em agosto de 2024, o militar contactou telefonicamente um colega e pediu-lhe um empréstimo de 200 euros. A explicação parecia urgente: a mãe precisava de tratamento médico hospitalar e o capitão da Base das Lajes devolveria o dinheiro quando recebesse uma compensação de um seguro. Depois chegou a referência para pagamento.
O documento disciplinar relata que este enviou uma referência bancária, “solicitando que o montante fosse transferido para esta conta”, acrescentando que posteriormente se constatou estar “associada a uma plataforma de jogo online (Betclic)”.
Na Força Aérea, desta vez, o que voou foi o dinheiro: os 200 euros pedidos para um alegado tratamento da mãe tinham como destino indicado uma referência associada à Betclic.
O processo refere que o militar acabou por devolver os 200 euros.
Depois apareceu uma alegada cirurgia oncológica
Dias depois, a história do capitão da Base das Lajes subiu de gravidade.
A 23 de agosto de 2024, o capitão da Base das Lajes voltou a pedir dinheiro, desta vez 500 euros. A justificação foi uma alegada “cirurgia oncológica no Centro Clínico Champalimaud”, que estaria marcada para 27 de agosto.
A pessoa contactada desconfiou. Pesquisou a entidade associada à referência fornecida, encontrou informação que a relacionava com “fraudes e burlas” e recusou transferir o dinheiro, apesar deste ter insistido. Outro conhecido foi também abordado para emprestar 200 euros, novamente para alegados “tratamentos oncológicos da sua mãe no Centro Clínico Champalimaud”.
Mas a investigação da Força Aérea chegou a uma conclusão particularmente dura: não existia “qualquer registo da prestação de cuidados médicos à sua mãe no Centro Clínico Champalimaud”.
Capitão da Base das Lajes também pediu dinheiro para propinas e até fraldas
Os pedidos continuaram. Uma testemunha entregou ao militar um total de 700 euros. As razões invocadas incluíram “tratamento oncológico da mãe”, “pagamento de propinas do filho” e “compra de fraldas para a mãe”. O militar pediu ainda que a pessoa não comentasse os empréstimos com terceiros.
Noutro conjunto de pedidos, entre outubro e dezembro de 2024, foram transferidos 1.800 euros. Surgiram novas justificações: cirurgia urgente da mãe, prolongamento do internamento, despesas judiciais, dificuldades pessoais e propinas do enteado.
Quando o processo analisou esses factos, dos 1.800 euros tinham sido devolvidos apenas 400, permanecendo “em dívida o montante de 1.400 euros”.
A própria acusação deixa ainda uma frase reveladora sobre a dimensão que os pedidos tinham atingido. Segundo a Força Aérea, não houve mais pessoas a transferir dinheiro porque “muitos já tinham conhecimento de histórias semelhantes envolvendo o Arguido”.
Força Aérea disse que o militar “planeava minuciosamente todo o enredo”
Na defesa, este invocou dependência do jogo e sustentou que os impulsos associados à doença o levaram a agir de forma descontrolada. A Força Aérea rejeitou que isso eliminasse a responsabilidade.
Na decisão final, considerou que os pedidos revelavam “planeamento, execução deliberada e uma perfeita capacidade de discernimento”. E foi ainda mais longe.
Segundo o despacho, ficou comprovado que o militar “planeava minuciosamente todo o enredo que utilizava para manipular as pessoas no sentido de as levar a emprestar dinheiro”.
O Chefe do Estado-Maior da Força Aérea considerou o grau de culpa “muito elevado” e concluiu existir uma “quebra, definitiva e irreversível, da relação de confiança” entre o militar e a instituição.
Acabou punido com separação de serviço, a medida disciplinar que determinou a sua saída dos quadros das Forças Armadas.
O que significa a pena de separação de serviço nas Forças Armadas?
A separação de serviço é uma das penas disciplinares previstas no Regulamento de Disciplina Militar. É como se fosse um despedimento de uma empresa.
O caso não termina aqui. Uma segunda investigação do Tugaleaks revelará outro núcleo do mesmo processo, com o mesmo militar, que envolve outros militares da Força Aérea Portuguesa, a divulgar nas próximas semanas.
Defesa confirma pedidos, mas atribui comportamento à perturbação do jogo
O advogado de defesa do capitão, Dr. Manuel Martins, depois de contactado pelo Tugaleaks, confirmou os pedidos de dinheiro e afirmou que, no caso dos 200 euros pedidos para um alegado tratamento da mãe, o valor foi utilizado em “apostas desportivas na casa de apostas Betclic”. Questionado sobre se a mãe necessitava efetivamente desse tratamento, respondeu “negativo”.
A defesa sustenta que este sofria de perturbação do jogo e que essa condição afetava “na totalidade” a sua capacidade de discernimento. Segundo o advogado, o militar “reconheceu todas as mentiras e manipulações” durante o processo de recuperação.
Afirma ainda que os valores foram posteriormente restituídos, com exceção do montante devido a uma segunda-sargento, e critica a condução do processo disciplinar, considerando que “a decisão aparenta estar tomada na génese do processo”.
O advogado apresenta hoje o ex-militar como “um exemplo de superação e de ajuda” e defende que, sendo enfermeiro, a Força Aérea poderia ter aproveitado o seu percurso para ajudar outros militares com problemas semelhantes.



