13 mil euros desaparecem após graves falhas de controlo da AT no Aeroporto de Lisboa

Aeroporto de Lisboa

Treze mil euros desapareceram no Aeroporto de Lisboa depois de um processo de apreensão de dinheiro que, segundo documentos internos da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), obtidos em exclusivo pelo Tugaleaks. O processo foi marcado por falhas de controlo, ausência de recontagem e procedimentos que o próprio processo disciplinar acabou por classificar como “negligência consciente”.

O caso aconteceu a 6 de novembro de 2023. Um casal proveniente do Irão transportava mais de 10 mil euros em numerário sem ter declarado o valor. A AT instaurou um processo de contraordenação e contou o dinheiro, num total de 21.920 euros, 1.000 dólares e 13,7 milhões de riais iranianos, num total equivalente a 23.173,70 euros.

A partir daqui, a história transforma-se num retrato pouco abonatório do controlo interno da própria AT.

Dinheiro apreendido ficou sem controlo no Aeroporto de Lisboa

O relatório final é particularmente claro sobre o ambiente em que decorreu o expediente. Na sala encontrava-se “um número indeterminado de pessoas estranhas a esse expediente”, enquanto o dinheiro permaneceu em cima de uma secretária.

Mais importante, terminado o expediente, o numerário foi colocado no cofre da “Sala dos Inspetores” sem uma nova contagem. O relatório escreve, sem rodeios, que “o dinheiro não foi recontado aquando da ‘entrada no cofre'”.

E há mais, segundo os próprios procedimentos descritos pela AT, o dinheiro deveria ser contado antes de ser colocado no cofre. Ainda assim, o relatório regista outra incongruência, indicando que “nenhum dos Passageiros assinou os autos e o dinheiro foi, na mesma colocado no cofre”.

No Aeroporto de Lisboa, as câmaras que resolviam tudo não existiam

A avaliação disciplinar da AT não trata o episódio como uma simples distração. A conduta é qualificada como “culposa, negligência consciente” e o relatório conclui que houve “grave negligência e desinteresse pelo cumprimento dos seus deveres funcionais”.

Há depois um detalhe quase caricato. Segundo a AT, um trabalhador investigado presumiu que, caso o dinheiro desaparecesse, alguém consultaria as câmaras de videovigilância e tudo seria resolvido.

Só que essas câmaras eram, nas palavras do próprio relatório, “inexistentes”.

A AT é ainda mais explícita: o trabalhador “previu que com a sua conduta, ou displicência, o dinheiro podia desaparecer, ou ser furtado, mas estava confiante nas câmaras de videovigilância, inexistentes”.

O trabalhador tinha formação específica para aquele serviço?

Segundo o relatório disciplinar, não. Entre as circunstâncias ponderadas consta que o trabalhador nunca tinha recebido formação específica para aquele tipo de funções.

13 mil euros desaparecem e ninguém consegue explicar como

Foi precisamente isso que aconteceu. Quando a falta foi detetada, estavam desaparecidos 13.000 euros. E o relatório admite aquilo que torna o caso especialmente grave: “Não foi possível determinar o que aconteceu nessa tarde de 06-11-2023 e a investigação criminal não logrou determinar quem foi o autor do furto”.

Nem sequer foi possível determinar se os 13 mil euros chegaram efetivamente a entrar no cofre, “uma vez que não houve recontagem, na hora da sua colocação no cofre“.

A documentação reproduz ainda uma conclusão particularmente delicada “todos os indícios levam a crer que a prática do ilícito terá sido cometida por alguém que tem acesso livre às instalações daquela instituição, nomeadamente funcionário da mesma”.

A investigação não identificou o autor. Mas os próprios autos apontavam, naquele momento, para alguém com acesso livre às instalações, incluindo a hipótese de um funcionário.

Até uma impressora faltava no Aeroporto de Lisboa

O processo enumera circunstâncias atenuantes. Algumas acabam por revelar problemas adicionais na própria organização.

O relatório fala em “escassez de Recursos Humanos” e até na “falta de impressora na Sala dos Técnicos”, que obrigava os trabalhadores a sair para imprimir, “deixando os Passageiros sozinhos”.

Um depoimento descreve aquela tarde como “anormal”, com “muito descontrolo, muito trabalho, muita confusão e pouco pessoal”.

Numa operação envolvendo dezenas de milhares de euros em numerário apreendido, a AT conseguiu chegar ao ponto de ter dinheiro sem recontagem, videovigilância que afinal não existia e uma sala onde até imprimir um documento obrigava a sair.

Podes descarregar aqui o relatório final completo da Autoridade Tributária e Aduaneira, com 43 páginas, e consultar os factos considerados provados, as explicações apresentadas pelo trabalhador, os depoimentos e as conclusões do processo disciplinar abaixo:

AT repôs os 13 mil euros desaparecidos no Aeroporto de Lisboa

O dinheiro nunca apareceu. A própria AT “providenciou a entrega dos 13.000€ (treze mil euros) ‘desaparecidos’ aos passageiros”, ficando com o prejuízo.

O processo disciplinar terminou com a aplicação de 45 dias de suspensão ao inspetor. Só que até essa suspensão acabou suspensa: a Diretora-Geral determinou que a sanção não fosse executada durante um ano.

Ou seja, desapareceram 13 mil euros, a investigação criminal não descobriu quem os furtou, a AT teve de devolver o dinheiro e a sanção aplicada ao trabalhador ficou suspensa na execução.

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